O ensaio sobre a preguiça

Estou terminando de ler O direito à preguiça, de Paul Lafargue. Uma obra de cunho socialista, que reforça o tempo livre como força revolucionária em contraponto ao tão aclamado direito ao trabalho. Não acredito no socialismo, tampouco em revoluções. Entretanto o livro traz um relato interessante sobre o que ocorria na época. Era a Europa pós-revoluções napoleônicas, final do imperialismo.

Lafargue expõe algumas idéias interessantes, que julgo pertinentes à epoca em que foram elaboradas. Dentre estas, a sugestão de que quanto mais tempo trabalhando, menos tempo a pessoa teria para a preguiça. Por conseguinte, não conseguiria pensar por si mesma, e viveria na dependência do senhorio eternamente. Estamos falando em uma época em que até mesmo mulheres e crianças eram submetidas a cargas horárias extenuantes.

Claro que o mesmo comete exageros, como é de se esperar. Por exemplo, ao justificar o direito à preguiça ao mencionar Deus como um grande preguiçoso, ao descansar eternamente ao final do sexto dia da criação. Entretanto ele não cita que na bíblia, a preguiça é condenada, como vemos em Provérbios 13:4O preguiçoso cobiça, mas nada obtém. É o desejo dos homens diligentes que é satisfeito. Ou ainda em Jeremias 48:10Maldito aquele que faz com negligência a obra do Senhor! Maldito o que recusa o sangue à sua espada. Mas percebe-se que ele usa esta analogia como forma de sátira, uma vez que o mesmo julga o capitalismo assim como o cristianismo como formas de aprisionar a sociedade.

Outros autores do mesmo periodo condenam o excesso de trabalho, porém de forma romanceada. Anterior a Lafargue, Charles Dickens em sua aclamada obra Hard Times (1854), apresenta uma versão distorcida de uma sociedade em que a população só existe em razão das fábricas. Em Coketown, os operários são aprisionados não somente pelas suas condições de trabalho, mas também por um estado mental que se confunde com a realidade. Mais uma vez temos o conceito do indivíduo ocupado com o trabalho que não tem tempo para pensar por si. Além disso, ambos autores professam a divisão igualitária e a filantropia como forma mais justa de sociedade.

Entendo que os tempos eram outros, e que mais do que o direito à preguiça, o que estes escritores reinvindicavam era o direito ao descanso, tão básico a qualquer ser humano. Avançando para os dias atuais, prefiro ficar com o ponto de vista da escritura sagrada. Sempre acreditei que não devemos depender de governantes. Se não agirmos por conta própria ninguém nos dará nada gratuitamente. Mas também entendo que para que a minha crença seja totalmente realizável, todos devem estar em condições igualitárias. E sabendo que em nosso país infelizmente isto não passa de utopia, cabe sim ao estado tentar reparar certos danos que se estendem ao longo do tempo. Nunca seremos uma sociedade igualitária, mas se minimamente todos tiverem condições de competir em igualdade, aí sim a meritocracia ditará as regras.

Quem sabe então poderemos desfrutar da preguiça merecida, e não recorreremos a falácias de que se a pessoa não prosperou na vida é por não ter se esforçado o suficiente. Rotular desafortunados como preguiçosos é tão ou mais venenoso do que acreditar que as idéias de Lafarque poderiam um dia ditar as normas da sociedade.

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