veia literária

BAR DO TIÃO

Desde muito novo já sabia a profissão que iria seguir. Sempre fui muito bom em servir as pessoas. Não foi vocação. A necessidade me enveredou por esse caminho. Aos treze eu já ajudava no bar do meu avô, o seu Sebastião. O bar do Tião, como era conhecido, ganhou certa fama local devido às atrações musicais que apresentava. Muitos eram os artistas que por ali passaram, desde músicos de finais de semana, até cantores de boates bem frequentadas.
– No meu bar, só vem empresário – era o que dizia o seu Tião. Até concordo, se considerarmos os autônomos como os ajudantes de pedreiro, pintores e carpinteiros. Todos fazendo bico pra tirar unzinho e gastar as migalhas no final do dia tomando “aquela que matou o guarda”.
Várias bebidas faziam parte das opções. Além do tradicional vermute, ainda servíamos xixi da xuxa, choro da virgem e suor do pelé. Essa ultima leva além de cachaça, uma raiz encontrada somente onde cresce pé de bugreiro. Nunca cheguei a provar, nem mesmo sei qual é o gosto do suor do rei do futebol, mas pelo cheiro acho que deveria ser algo parecido mesmo.
Mas foi somente quando meu avô ficou doente e impossibilitado de tocar o negócio da família que eu realmente descobri meu talento. Fui criado pelos meus avós desde muito novo. Minha mãe foi morar em outra cidade logo após a morte de meu pai. Arrumou um bom emprego, e como não tinha tempo de cuidar de mim, acabou me deixando com os simpáticos velhinhos. Cheguei a terminar o ginásio, mas minha missão realmente era gerenciar aquela espelunca.
Ao assumir o controle do bar, por volta dos vinte, resolvi revolucionar nosso ganha-pão. Iniciava-se a partir dali um novo conceito de entretenimento etílico. Criei novas bebidas, e na hora do teste final contava sempre com os serviços do Andrézão, bexigão de carteirinha. A mais famosa – batizada pela alcunha de coro de sogra – foi a que impulsionou as vendas. Composta por cachaça bola 8, pele curtida de cobra e um ingrediente secreto que bem… não sei se devo mencionar agora. Primeiro contarei como cheguei a tal composição da bebida.
O movimento vinha aumentando, mas a quantidade de vendas feitas no fiado estava começando a gerar problemas. Para solucionar a questão, resolvi lançar uma promoção. Aqueles que quitassem suas dividas e pagassem em dia, concorreriam a um garrafão exclusivo da nova bebida, antes mesmo de seu lançamento oficial. Além disso, teria uma foto exposta em meio aos pôsteres dos títulos do Paraná Clube estampados na parede do bar. Já tinha encomendado as peles de cobra para o tio Zé Calo, grande caçador da região. Chamei o Andrézão para provar, e nos preparamos para o teste. Depois de mergulhar as peles no vinagre por seis horas, e curtir as peças na cachaça por dois dias, havia chego o tão aguardado momento. O que eu não esperava era que o ingrediente secreto seria adicionado por acidente.
O forro do telhado foi retirado para reformas, e existiam muitos pombos que faziam seus ninhos por ali. Quando destampei a panela com a bebida, os bastardos habitantes do teto resolveram defecar exatamente encima do recipiente. Como a sujeira foi grande inclusive encima do balcão, busquei um pano para limpar. Nesse exato momento, Andrézão sem perceber o ocorrido resolveu tirar uma prova. Tomou um gole da mistura e exaltou de alegria:
– Caramba, que coisa boa, o que você colocou ai?
Tentei impedir, mas foi tarde demais. Ele virou novamente outro gole direto do vasilhame, e já saiu espalhando a novidade. Logo chegou o Madruga, outro assíduo frequentador, e também aprovou o resultado. O sucesso foi tão grande, que acabei iniciando as vendas antes mesmo de encerrar a promoção.
Pessoas de fora me visitavam somente para provar a sensação alcoólica. Com o tempo, o movimento aumentou e fui ganhando além de fama, muito dinheiro. Um grande chefe de cozinha conheceu o coro de sogra, e encomendou cinquenta litros para servir de aperitivo em seu restaurante.
Com a produção aumentando, tive também que profissionalizar a criação de pombos. Construí um viveiro no quintal de casa, e no chão havia um piso especialmente preparado para recolher os excrementos. Com o tempo, acabei aprimorando a receita, fervendo o ingrediente secreto diretamente na cachaça por aproximadamente meia hora. Depois, adicionava as peles de cobra com uma pitada de colorau, pra disfarçar a coloração esbranquiçada do liquido. A população de pombos aumentou rapidamente, e não tive alternativa a não ser abater os animais excedentes e cozinhá-los. Com a ajuda do chefe de cozinha, estava criado o prato sensação da cidade: Coro de sogra com carne de prima. Nunca contei que eram pombos, pois a carne era toda desfiada e servida no meio do pão. Todos achavam que estavam comendo carne de galinha caipira.
O bar do Tião – negocio de família, com mais de cinquenta anos de tradição alcançou o sucesso. Atingi minhas metas, e ainda hoje, o Seu Sebastião no auge dos seus oitenta e tantos vive nos arredores. Nunca experimentou o principal prato da casa, também nunca perguntou nada a respeito. Acredito que no fundo ele sabe, tem faro de botequeiro. Os negócios continuam bem, e eu continuo a parceria com o tal chefe de cozinha. O Andrézão, que todo dia come carne de prima com coro de sogra, acabou ganhando a promoção. Ainda espera receber o premio, que eu, todo atarefado esqueci de pagar.

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