veia literária

ROLLMOPS

Chego cansado, porém aliviado. Logo puxo uma banqueta e sento rente ao balcão. Peço meu tradicional martelinho do dia, enquanto ouço uma saudosa canção de Milionário e José Rico. Encosto-me de cotovelos e relaxo. Meus tradicionais companheiros de bar: O Joca, o Bola e o Zorba teimam numa discussão sobre a melhor iguaria da casa. Como bom entendedor, ouço com atenção, mas sem expressar minha opinião.

– Melhor é a vina, com muito sal e vinagre – diz Bola, batendo no balcão.

– Que nada, bom mesmo é ovo em conserva – retruca Joca.

Zorba se mete na conversa expondo sua preferência por Rollmops.

-E você Jão, o acha?

Viro de frente para o grupinho. Pensativo, coço o queixo e confesso:

– Nunca experimentei Rollmops.

– Nunca? O espanto foi grande, não só do famigerado trio, mas também de todos os bexigas presentes no recinto.

– Mas então, o que está esperando? Retruca Joca esfregando as mãos.

– Não sei, não sei. Tenho problemas com gases…

Cagão, vai arregar! Berra Zorba para o bar ouvir. Todos me olham com expectativa. Sem saída, resolvo testar meu paladar. Afinal, se todos comem, não deve ser tão ruim assim. Encorajo-me e encaro o dono da espelunca:

– Toni, me vê um Rollmops.

– Qual você quer?

Toni tira o pano do ombro, espanta umas moscas de cima do vidro de conserva e exibe o tão cultuado petisco.

Analiso com certo receio o conteúdo do frasco. Um em especial me chama atenção, pela sua aparência asquerosa. Além de grande, apresenta uma cebola amarelada e uma mancha vermelha na sardinha.

– Eu escolho – se intromete Zorba. Quero aquele ali, bem especial.

Toni entrega um garfo para Zorba, que tirando a língua para fora escolhe justo aquele que mereceu meu destaque.

– Coma!

Pego um guardanapo para segurar o Rollmops. analisando o produto, penso comigo mesmo: “Que Santo Onofre me proteja”.

A expectativa era grande da parte de todos os presentes. Até rolaram apostas sobre se eu comeria ou não, em quanto tempo eu vomitaria, e até mesmo se sairiam lágrimas de meus olhos.

Enfim enfio boca adentro o periculoso artigo alimentar. Pensamentos invadem minha mente. Nesse momento, passou o filme da minha vida. Arrependo-me até mesmo da faculdade que tranquei aos vinte anos. Se tivesse terminado, provavelmente não estaria ali, naquela situação.

O artefato rola em minha boca, de um lado para outro. Tento ao máximo fazer com que não se encoste à língua. Quanto menos sentir o sabor, melhor.  O azedo misturado com o salgado já toma conta. Sinto a consistência de plástico velho com borracha laceada. Sabor adstringente, aliviado somente pela presença da cebola.

Por um momento achei que não iria conseguir. Até mesmo a farofa de ovo da janta passada resolve dar o ar de sua graça: Quase volta pela boca. Ofegante, deixo o ar puro entrar, fazendo sinal para que me tragam mais um martelinho. Mato a dose num gole só, e o Rollmops num vai e vem danado na minha garganta. Foi a batalha entre meu esôfago, defendendo as tropas aliadas (estômago, intestinos e aquilo que ainda resta de meu fígado), contra as linhas inimigas, formadas pela língua, dentes e pela goela.

Enfim os inimigos vencem, engulo a bomba atômica. Solto um grunhido acuado e bato no balcão. Tomo outra dose para descer melhor, enquanto o fogo toma conta do território aliado. Surge uma baita azia, que ficou ardendo durante toda a semana. Solto perdigotos a fim de expulsar os gases do efeito estufa.

Uma lágrima escorre de meus olhos, todos me abraçam e comemoram minha vitória. Descubro o que é emoção. Se você não experimentou um Rollmops, sinto em lhes dizer, mas ainda não viveu de verdade.

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