veia literária

Melhores Manhãs

Após dois dias sem sair do meu quarto, resolvi ir até a cozinha. Não foi por um simples impulso, meu pai estava cozinhando. O cheirinho de cebola frita estava convidativo. O clima ameno, céu meio cinzento, acabou arrancando um sorriso de meu rosto. Não gosto de dias de muito calor, assim como também fico indisposto em dias de frio.

Meu pai estava de costas para mim, mexendo nas panelas: – Que bicho te mordeu para você sair da toca? Depois de comer, aproveita e abre a sua janela, para arejar o ambiente.

Nossa casa de formato peculiar, possui duas cozinhas: uma interna e outra externa. A interna quase não é utilizada, somente quando recebemos visitas. A do lado de fora é totalmente aberta, apenas com uma mureta de proteção. Neste cômodo se situam a churrasqueira, e uma mesa grande com bancos de madeira ao redor. Foi projetada para acomodar mais pessoas. Todos os eletrodomésticos de uma cozinha ficam lá. Um espaço gourmet, poderia assim chamar.

O cheiro realmente havia despertado meu apetite. Me sentei a mesa, e uma idéia me passou pela cabeça. Antes porém, precisava terminar de comer e arrumar meu quarto.

Enquanto organizava meu armário, encontrei minha máquina fotográfica. Havia perdido ela dias atrás, mas não tive interesse suficiente para procurá-la. Aproveitei para utilizá-la quando retornei a cozinha externa. Chamei meu pai e fotografei-o de avental lavando a louça. Ele me fitou com estranheza, sorriu e me beijou a testa. Saí no quintal e passei a observar a natureza.

Sentei na grama, próximo ao muro da casa. Meu pai mantém uma pequena horta, onde cultiva algumas hortaliças. Deixei-me seduzir pelos aromas presentes ao ar livre. Fechei os olhos, inspirei profundamente o ar daquela manhã cinzenta e expirei calmamente. Exercícios de relaxamento, dizem que funciona.

Senti aromas diversos: alface, folhas de laranjeira e tomates. Abri os olhos, e com um punhado de terra nas mãos, provei sua textura – fofa e granulada. Deitei-me na grama úmida e gelada, percebi que formigas  passeavam em minha pele.

Ouvi o som do vento, das folhas balançando, o canto das andorinhas. Retirei uma cenoura ainda da terra, e mesmo sem lavá-la mordisquei alguns pedaços. Estava saborosa, talvez a mais gostosa que já havia provado. Além do gosto orgânico da planta, havia uma crocância que eu nunca havia provado em vegetais.

Com a máquina fotográfica em mãos, registrei cada planta com o qual estive em contato. Peguei lápis e papel, e  retratei através de desenho a laranjeira que tão bom odor exalava.

Tinha material suficiente para lembrar este momento. Anotei na minha agenda: Registrar mais momentos de simplicidade. Na verdade não se tratava de registrar, mas sim de desfrutar. Decidi montar uma pequena exposição como incentivo. Minha sobrinha adora desenhar, e com certeza participaria desse pequeno evento.

Sem perceber, haviam se passado cerca de duas horas. Motivado pela inspiração momentânea,  me ofereci para ir ao supermercado. Foi uma das melhores manhãs em muito tempo.

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