veia literária

déplaire

O despertador toca estridente anunciando a chegada de mais uma segunda feira. De novo, mais do mesmo: levantar, tomar banho, tomar café. Sair para trabalhar.
Chego ao trabalho às sete e meia da manha. Bato o cartão, visto meu uniforme e vou para minha sala. A primeira meia hora de trabalho é sempre inútil – verifico e-mails e notícias, alguns sites de literatura. Gosto de começar meu dia assim: improdutivo, satisfatório.
O pessoal da produção chega fazendo barulho. Agora acaba meu sossego. Verifico a papelada e planejo meu dia de trabalho. Nada de novidade, somente imprimir registros, preencher papéis que para mim não fazem mais sentido. Coletar assinaturas e arquivar documentos. Seguir normas e fazer com que os demais companheiros goela a baixo também as sigam.
No início até gostava destas coisas, achava desafiador. Hoje, depois de ter o trabalho estabilizado já não vejo mais sentido. Sempre vem em mente a mesma questão: Não deveria ocupar meu tempo com coisas que realmente considero importantes? Reflito quais seriam estas coisas – ajudar no desenvolvimento de outras pessoas, contribuir para a formação humana. Atualmente não faço isso. Perco meu tempo somente na ideia de produzir mais e melhor. Concluo que não estou feliz.
A manhã vai passando, chega a hora do almoço. Maravilha! Mato minha fome e ainda terei tempo de tirar uma soneca. Pelo menos estarei com a cabeça limpa para aguentar uma tarde inteira de normas e relatórios.
Volto com o corpo pesado para a batalha. Não a batalha do tipo “pão de cada dia”, e sim a batalha contra minha vontade de sair correndo dali e fazer algo que realmente me realize. O que me difere de um pássaro na gaiola?
A tarde vai passando, executo mecanicamente minhas atividades. Agora me concentro para fazer tudo corretamente, e terminar as coisas o mais rápido possível. Consigo terminar minhas tarefas com êxito, ainda me restam alguns minutos antes de ir para casa. Aproveito este momento para pesquisar e planejar meus sonhos para o futuro. Talvez seja esta a melhor hora do trabalho. Sonho, imagino, reflito sobre meu desenvolvimento futuro.
Chega a hora de ir para casa, troco o uniforme e saio com um meio sorriso no rosto. Não pela satisfação do “dia ganho”, na verdade é o alívio de me livrar temporariamente da tortura.
Chego em casa, tomo banho e me alimento. Agora sim consigo relaxar. Sento na cama e abro um livro. Este é o momento mágico do dia: insiro-me no mundo do autor, viajo pela sua obra e acalmo meus sentidos. O sono começa a surgir. Tomo meu antidepressivo e me deito. Fecho os olhos. Agora do que não preciso é pensar na rotina do dia seguinte.
Amanha é outro dia. E mais outro. E mais outro. Meu deus, quando começo a viver de verdade?

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3 comentários em “déplaire

  1. Antes de ter meu surto mais pesado eu também trabalhava num lugar que me oprimia. Era uma tortura diária ter que acordar, ir para aquele lugar e passar o dia esperando o dia passar. Honestamente acho que aquele contexto contribuiu muito para eu ficar doente. Acho que uma das únicas coisas que mudaria na minha vida… era ter saído de lá. Na época eu achava que não podia, tinha acabado de me casar e nós precisávamos do dinheiro, hoje eu acho que meu casamento teria durado mais se eu estivesse sem dinheiro mas com saúde. O pânico tem só um lado bom, ele te empurra para o buraco de tal maneira que não tem outro caminho senão sair dele. Seria perfeito se pudéssemos aprender com o erro alheio, mas parece ser inerente ao ser humano experimentar por si só. Se eu pudesse te dizer alguma coisa, diria para sair correndo desse lugar e nunca olhar para trás. Quando saí daquele emprego horrível eu perdi minha casa e meu marido… mas foi o primeiro passo para fazer alguma coisa por mim, alguma coisa que fizesse os dias não serem tão cumpridos e nem tão cinzas.

    1. Já fiz isto, sai desse lugar. Apesar disso, continuo em contato com eles, já que sempre me auxiliaram quando precisei. Realmente, quando percebi que esta era uma das causas dos meus problemas, consegui me libertar. Agora é esperar pelo resultado.

  2. Pingback: Cachorro Magro?

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