veia literária

Na espera

Olhei para o relógio na parede: 3 e 17 da tarde. Um relógio um tanto peculiar, onde os ponteiros estavam na barriga do rato, e a cada passar de segundo o rabo sacudia pra cá e pra lá. Tec..tec…tec…tec… minhas mãos já estavam suando. Ao meu lado, na sala de espera uma velha senhora que usava uma blusa de lã cheirando naftalina. Fazia um barulho engraçado com a dentadura, tirando e colocando de volta na boca com a ajuda da língua. Ao ver a cena, me lembrei de algumas tias que tinham o mesmo hábito estranho, revirando a dentadura dentro da boca.
No canto da sala uma porta de vidro com uma persiana branca. De lá de dentro só conseguia se ouvir aquele barulho clássico desse tipo de ambiente: tzzzzzzzzzzzzzz tzzzzzzzzzzzzzzzz, logo pensei… meu deus, daqui a pouco é a minha vez… comecei a suar não só na mão, mas a camisa embaixo do sovaco já dava sinais do meu nervosismo que ia aumentando aos poucos. Na minha frente outra fileira de cadeiras, e uma mãe tentava conter seus dois fedelhos, um escorrendo ranho do nariz e o outro puxando e desembaraçando os cabelos da paciente figura materna. Olho novamente para o rato na parede, e haviam se passado mais 6 minutos… dentro de dois minutos seria a minha vez.
A secretária, um tanto atarefada com seus afazeres: lendo o resumo do capitulo da novela das oito e lixando as unhas continua ali, muito concentrada e parecendo estar mais preocupada do que eu para que as horas passem logo. Claro, não será ela que vai ter que ficar por horas e horas com a boca escancarada enquanto o sádico de jaleco branco perfura tudo aquilo que sobrou da sua dentina para preencher com amálgama enquanto aprecia o sofrimento alheio.
De repente, sai da porta de vidro um homem aparentando os 40, com a testa suada e poucos cabelos que lhe restam na cabeça umedecidos. Ele dá um meio sorriso para a secretária e sai da sala meio desnorteado. Detalhe, ele ainda estava anestesiado, o que tornou seu sorriso um tanto engraçado, pelo fato de somente a metade da boca esboçar o sorriso, a outra metade estava amortecida e a cena foi engraçada de se ver.
A secretária, então demonstra uma reação e fala:
– 19, pode entrar.
Olhei pro rato que marcava 3 e 25, e logo pensei: “ Já era, não tem mais volta” . Me levantei, ajeitei a calça que estava caindo e estendi a mão cordialmente em direção ao sádico. A espera havia acabado, entrei na câmara de tortura e não sabia a partir dali o que aconteceria, e se sairia ileso de lá.

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