veia literária

O homem sentado

Um homem aparentando a casa dos 30 anos, todo dia sentava-se num banco de praça, sempre por volta das duas da tarde. As semanas se passavam e ele continuava lá, sentado, sozinho, com seus devaneios e saudosismos. Sempre solitário, não trocava sequer uma palavra, nem interagia com as formas de vida existentes no local – apático, indiferente e controlado.

Certa vez, surgiu ao seu lado no banco em que ele sentava, um pássaro. Todo exibido, floreava de um lado para outro, e tanto fez que chamou a atenção do sisudo que tinha o estranho habito de ficar imóvel sempre no lugar. O homem esboçou um sorriso de canto de boca, e alguns minutos depois, o pássaro voou para longe, deixando novamente o pobre solitário em seu lugar.

O pássaro apareceu mais vezes, e o homem sentado no banco já não estava mais tão indiferente com a ave. Agora já interagia com ela, e começou a enxergar as belezas da natureza breve que o cercava. O tempo foi passando, e os dois construindo uma bela amizade. O pássaro mostrou uma outra visão sobre a vida, e o homem estava mais alegre e contente, cumprimentava e conversava com quem passava, já não era a estátua que antes padecia ali.

Até que um dia, o pássaro não mais apareceu, e o homem ficou ali por horas sentado esperando. No dia seguinte, novamente a ave não apareceu, e assim se seguiu por mais algumas semanas.  O homem continuou ali sentado, esperando que seu amigo voltasse e lhe devolvesse a alegria de dias anteriores.

Cegado pela esperança de que um dia seu amigo pássaro volte, o homem deixou de interagir com aquilo que estava a sua volta, somente pensando no amigo que muitas coisas boas lhe trouxe, mas que não está mais lá. Nesse momento o homem está novamente ali sentado: sisudo, apático, porem não tão indiferente quanto antes.

Não se sabe se o pássaro voltará, mas todas as tardes por volta das duas, o jovem estático continua a esperar pelo pássaro, e hoje em dia é isso que lhe motiva a sentar sempre no mesmo lugar: a esperança e a incerteza de ter de volta aquilo que se perdeu. Quem sabe por esse mesmo motivo antes ele tinha o hábito de se sentar ali, e quem sabe por muito tempo ele continue com esse costume, até que outra criatura o tire de seu estado de inércia – ou simplesmente ignore, assim como é feito quase todos os dias por quase todas as pessoas em quase todos os lugares.

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