Sobre a motivação

Comentei recentemente que estou me importando muito mais com o processo do que com as metas em si. Entretanto, é muito difícil manter a consistência em determinadas atividades. Principalmente se forem atividades que nos tiram do estado de inércia. Por exemplo, eu decidi neste mês de abril que vou escrever diariamente. Eu costumo escrever normalmente de uma a duas vezes na semana. Agora a coisa é diferente, estou me forçando a fazer desta atividade uma rotina diária.

Apesar disto, apenas fazer este propósito não é suficiente para realizar. Eu preciso sempre encontrar inspiração, uma influência (conforme publiquei ontem) que me leve a ação.

Não chega a ser nenhuma meta para mim escrever melhor, mas sim, eu quero que isto ocorra. Eu já disse antes isto por aqui, e talvez seja a maior motivação que me leva a escrever todos os dias. Mas além de um motivo principal, poderiam haver outras formas de se motivar? Bom, neste assunto eu não sou nenhum especialista, mas eu sigo uma estratégia base que serve para qualquer situação.

Se eu planejo andar de bike mas me bateu preguiça, eu vejo algum vídeo de pessoas fazendo trilha. Se quero estudar algo, acesso algum conteúdo de quem já atingiu o nível que espero alcançar. Para trabalhar, normalmente eu ouço algum trecho de podcast para ajudar (recomendo fortemente ouvir os agilistas). Creio que entrar na mentalidade focada na atividade em questão, ajuda muito a dar o ponta-pé inicial.

Outra coisa que eu faço, é uma espécie de oração pessoal. Eu gravei um tempo atrás algumas frases com afirmações sobre mim mesmo. Coisas que eu quero realizar, ou que já fiz e das quais me orgulho muito. Sim, eu massageio meu ego todos os dias, isto é um ótimo exercício de motivação. Bom, por hoje eu paro por aqui, se não acabo me empolgando demais e isto aqui vira quase um capitulo de livro. Até a próxima!

A Influência

Não sei se acontece com todos, mas eu sou altamente influenciado por aquilo que eu leio. Até por isto eu procuro escolher muito bem com o que gastarei meu tempo lendo. Mas isto não significa que sou influenciado por qualquer coisa. Não confunda – eu sou influenciado pelas leituras que me captam, e não influenciável. Algumas teorias ou conceitos que eu não concorde dificilmente serão capazes de mudar algo em mim. Claro, sempre tem aquelas coisas que me deixam de queixo caído, mas confesso que está bem difícil de acontecer. Até por que eu não tenho procurado coisas muito diferentes daquilo que usualmente já é de meu gosto pessoal.

Alguns assuntos ou estilos de autores mexem comigo um pouco mais. Obras que dizem respeito à depressão, superação pessoal e comportamento humano tem este poder especial em mim. Alguns autores, sabe daqueles que parecem estar conversando diretamente conosco, estes também conseguem me prender um pouco mais. Cristóvam Tezza, Fernando Sabino e Piers Paul Read são mestres neste ponto.

Agora eu acho estranho que apesar de eu gostar de livros ditos de auto-ajuda, estes não me pegam muito não. E olha que eu até tento. Leio, releio, rabisco, anoto. O poder do hábito acho que teve mais persuação. A obra que eu vejo que me causou mais impacto recentemente, foi Mostre seu trabalho, de Austin Kleon. Em algum momento eu vou aplicar seus conceitos quase que em sua totalidade. Aquilo faz muito sentido para mim.

Dentre todos os lidos, dois em especial são revisitados sempre que sinto precisar de uma inspiração. O Demônio do meio dia e Into the Wild. Ambos já ganharam postagens dedicadas por aqui. Devo ter lido umas três vezes cada, e penso em relê-los muito em breve. Eu ficaria realmente muito feliz de encontrar mais leituras desruptivas. Entretanto confesso que já está difícil de ler o que está no aguardo em minhas prateleiras, quem dirá ter paciência de garimpar coisas diferentes. Mas enquanto isto eu me divirto e procuro me influenciar um pouco mais (ou não) das coisas boas que encontro por aí.

O caminho

Agora, para misturar tudo, e de certa forma me contradizer com o que escrevi ontem, venho declarar que apesar de traçar duas grandes metas para o futuro, eu não me importo com as metas. Eu me importo com o trajeto que vou percorrer até lá. E nossa, como eu queria que este dia chegasse. É tão estafante viver sempre parecendo cachorro correndo atrás do rabo. Mas acho que só me dei conta depois que o meu irmãozão das Invasões Adrianáticas (que anda meio sumido daqui, diga-se de passagem), me deu um leve peteleco “piá, ta na hora de sossegar um pouco, você nunca aproveita nada, parece que tá sempre te faltando algo“.

Resolvi então tentar focar nos pequenos progressos, nas menores conquistas. No que diz respeito à musculação, me dou por satisfeito agora a cada dia que consigo aumentar a carga de exercícios, ou executar com precisão algo a qual eu tenho ainda dificuldade (sim, ainda dominarei a arte da barra fixa!). Já na questão profissional, estou curtindo muito aprender coisas novas a cada dia, assim como os ensinamento que me são passados na especialização que agora estudo. Na parte financeira, ao invés de ficar pensando que preciso guardar dez mil reais até o fim do ano, eu me dou por satisfeito ao conseguir guardar cinquenta reais a mais do que consegui no mês passado.

Não sei, mas eu passei a ter a sensação de que estou vivendo muito mais o agora. E sério, eu quase nunca experimentei isso em minha vida. Exceto durante meu tempo na Irlanda e durante alguns momentos na faculdade, eu sempre vivia o agora pensando no amanhã. Realmente eu não sei como não me tornei uma pessoa ansiosa.

Para encerrar, eu deixo um vídeo bem interessante que encontrei enquanto pesquisava algo sobre a definição de metas. Não concordo em 100% com tudo o que diz ali. Entretanto, tirei a essência daquilo que me serve, afinal sempre dá para tirar proveito daquilo que consumimos, mesmo que não nos agrade em sua totalidade.

A armadilha das metas

Já é amplamente conhecida a frase de Alice nos país das maravilhas – Quando não se sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve. E para não ficarmos vagando sem rumo, a definição de metas e objetivos é de fundamental para manter a consistência durante o percurso. Encontrei a definição de que objetivos não são específicos, enquanto metas são mensuráveis. Discordo em partes, no meu entendimento metas são maiores, e objetivos são pequenos passos em direção a nossa meta. Mas, e ao atingirmos a meta desejada?

Tracei grandes metas para a minha vida. A primeira que eu me lembro era a de conseguir passar no vestibular da UFPR, depois me formar na UFPR, e a última a que me recordo era morar fora do país. Falei somente de metas que eu conquistei. Tracei sim outras metas para mim, mas em alguma parte do processo elas se perderam. E agora nesse ponto eu chego a duas provocações:

  1. Aqueles que atingem suas metas ficam desapontados. Por isto hoje eu vejo como mais importante do que ter uma meta, é pensar sempre no que vem após. Não existe final feliz depois da meta atingida, a vida continua. Eu fiquei muito perdido em minha volta para o Brasil, depois de ter realizado o sonho de passar um tempo morando na Europa. Não planejei o que eu pretendia após o retorno. Fiquei tão aficcionado em atingir a minha meta, que não pensei no depois. Levou um certo tempo até as coisas se ajustarem, e hoje penso que eu poderia ter resultados melhores caso me atentasse a este ponto.
  2. Aqueles que não atingem suas metas ficam arrasados e frustrados. Só que neste ponto, eu acredito fortemente que devemos sempre pensar na alternativa seguinte. Olha, possivelmente eu não comentei sobre minhas metas não atingidas, por não mais me lembrar delas. Segui em frente e busquei uma alternativa. A gente lembra daquilo que conquista normalmente,e pode ser que eu só segui em frente e mudei o foco.

Então, pensando por este lado, será que traçar metas tão grandiosas, sem planejar o depois não é uma armadilha? Eu penso nisso justamente agora que eu já tenho dois grandes projetos para os próximos dois anos. Entretanto, desta vez eu já delineei alternativas caso não as atinja. Não seria um prêmio de consolação, mas sim boas opções que se enquadram naquilo que espero para o futuro. Seria então a flexibilização das metas algo mais plausível? E pensando agora somente no processo, o erro não estaria em pensar somente no objetivo final, sem aproveitar o caminho? O grande pensador brasileiro Michel Teló nos diz em O tempo não espera ninguémA felicidade está no caminho, aproveite todos os momentos que você tem“. Frase bem clichê, mas tão verdadeira para mim agora. Termino hoje por aqui sem conclusão alguma, só inspirações para amanhã tratar do caminho. Até lá!

Efeito Cascata

Existem momentos em que a gente se sente confortável. Aparentemente a vida vai bem, sem grandes percalços, não temos muito do que reclamar. Muitas vezes somente após alguma queda ou algum trauma percebe-se que algo está errado. Eu considero essa calmaria perigosa, as vezes os fantasmas estão ali escondidos, preste a assombrar. Em tempos de pandemia, creio que ninguém sente-se confortável, ainda assim eu queria algo a mais. E praticar atividades físicas foi o meio que encontrei para um upgrade.

A mudança da minha rotina fez com que eu adaptasse minhas tarefas para encaixar a ida para a academia. Com isto me tornei mais ativo. Por conseguinte, acabei tomando mais consciência corporal e a me preocupar com a minha alimentação. Além de prestar mais atenção naquilo que consumia, comecei a estudar o quanto eu estava gastando, e em quê eu estava investindo. Cheguei a conclusão de que precisava melhorar as minhas finanças, e para isto me preparar para um novo salto na carreira. Aliada ao interesse na minha qualidade de vida, passei a dar mais valor nas minhas relações pessoais. Uma coisa foi puxando a outra, um efeito cascata.

Percebe como o simples fato de voltar a fazer musculação, acionou um gatilho de melhoria em todas as áreas de minha vida? Pra mim funciona bem com atividades físicas, mas pode ser qualquer outra coisa. Pode ser se preparar para um concurso público, o interesse em aprender uma nova língua, a vontade de tocar um instrumento musical, ou até mesmo de melhorar a sua escrita.

Quando resolvemos nos aprimorar em algo, outras mudanças vem por acréscimo. E se conseguimos manter a consistência, ficamos a cada dia melhores. O foco está em aprimorar um pouco a cada dia. Tentar hoje fazer um pouco mais do que fiz ontem. Isto é do que mais gosto neste processo. Esta mudança de mentalidade que não nos deixa acomodado. Quando atingir um objetivo já ter outro um pouco maior em mente. Além de sensacional, isto evita-nos de cair em armadilhas, as quais comentarei mais a respeito no artigo de amanhã. Até lá!

Consistência

Decidi no início do ano que retornaria para a academia de ginástica, e voltaria a praticar musculação. Assim como muitos outros meros mortais, iniciei e desisti da musculação por diversas vezes. E somente numa destas vezes foi por um motivo plausível, nas outras foi somente desistência. Faltou força de vontade em persistir.

Até poderia argumentar que não estava motivado o suficiente, que a academia não era boa, ou ainda que era longe de casa, que eu não tinha tempo, ou que não era a minha prioridade no momento. Só que houve um destes periodos de vai e volta, em que consegui desenvolver disciplina e força de vontade para me manter constante com os exercícios físicos. E foi exatamente isto que fez a diferença, a consistência.

E o fato de eu me manter firme em um propósito, que na época era perder peso, fez com que aos poucos eu atingisse meu objetivo. Em seis meses perdi cerca de 14 Kg, e continuei no processo até atingir o peso que ainda mantenho até hoje. Claro que não foi somente a musculação, nesta época eu trabalhava numa empresa que me proporcionou uma alimentação mais saudável e equilibrada. Eu morava na praia, e isto era motivador para correr e andar de bike, acordar cedo e ser muito mais ativo.

Além disso, outras pessoas me ajudaram. Os instrutores da academia, que eram ótimos por sinal, me incentivaram e ouviam as minhas demandas. Um fisioterapeuta me auxiliou para que eu corrigisse erros posturais. Minha irmã e meu cunhado (na época eu morava com eles) eram adeptos de vida saudável. Participava de grupos de ciclismo, andava com gente que levava um estilo de vida semelhante ao meu. Eu tinha em quem me espelhar, e eles eram uma espécie de mentores, que me ajudavam a levantar sempre que eu caía.

Aquele periodo foi um dos melhores da minha vida, e foi exatamente esta lembrança que me fez retornar aos exercícios neste ano. Estou tendo a sorte de mais uma vez poder contar com uma boa academia e com bons professores. E se desta vez não estou cercado com os estímulos de outrora, eu desenvolvi metas maiores que vão contribuir a médio prazo para que eu consiga manter a consistência. Estas metas e toda a reação em cadeia proporcionada pelo simples fato de levar atividades físicas a sério novamente serão o assunto do texto de amanhã. Até lá!

Programa Livre

Preparado para uma viagem nostálgica para as tardes dos anos 90? Pois é, parece impactante e forte, mas para mim são poucas as coisas que me impactam com força no que diz respeito a trazer memórias de imediato. O programa livre foi um programa apresentado pelo Serginho Groissman (muito melhor do que o altas horas, diga-se de passagem). Era transmitido depois do Cinema em casa e antes do chaves ou das novelas mexicanas. Marcou época, trazia e lançava artistas de vários estilos, e era conhecido pelos debates que continha, e o famoso bordão “Fala garoto“. Mas, somente falar a respeito não funciona. Deixo abaixo um dos episódios mais icônicos da história do programa.

Ao começar pela abertura, já começam as recordações. Lembro-me bem que eu tentava copiar o carimbo da abertura, mas com o meu próprio nome (sim, eu era uma criança que adorava brincar com carimbos). Ao iniciar o programa, já vemos um formato que era mais usual à época. Hoje em dias vemos alguns programas de palco principalmente da TV Cultura que continua a usar o mesmo formato. Vários adolescentes na platéia, e percebe-se se tratar de jovens entre 13 e 17 anos de idade.

Mas o que realmente incomoda, é o comportamento destes jovens. Prestem atenção na educação, na postura e nas perguntas feitas pela platéia. Posso estar sendo pessimista, mas eu não vejo adolescentes nos dias de hoje com a mesma maturidade. Inteligencia ainda possuem, mas muito mal explorada. Também entendo que talvez seja a falta de referências. Hoje em dia, para quem eles fariam perguntas, pro MC Kevinho? Percebam a diferença. Essas pessoas tiveram o privilégio de ver ao vivo e conversar com os integrantes da Legião Urbana. Que inveja eu tenho da oportunidade que eles tiveram de ver o Renato Russo vivo.

Falando do programa em si, prestem atenção em dois momentos. O primeiro é do que o Renato Russo fala a partir do minuto 9, antes de tocar a música 1965 (Duas Tribos). Abominávelmente assustador de como este discurso se encaixa perfeitamente com os dias de hoje. Acho que ninguém, por mais pessimista que seja, poderia imaginar este cenário na atualidade. O segundo e mais marcante momento é quando eles tocam Love in the afternoon, do disco O descobrimento do Brasil (1994). Percebam a cara do público. Todos emocionados, com lágrima nos olhos, sem o menor pudor. Mostrando mais uma vez a maturidade que estes adolescentes já possuíam.

Para concluir, eu digo que foi uma experiência boa ter revisto este programa. Tive o privilégio de ver Legião Urbana ao vivo neste novo projeto da banda, em Curitiba no ano de 2019. Aliás, este dia foi tão espetacular que ganhará um texto especial por aqui. Confesso que rolou uma mistura de desânimo e saudosismo, uma falta de esperança por ver o quão baixo a música brasileira chegou. E mesmo que surjam coisas boas ultimamente (minha coluna discos perfeitos mostra isto!), é uma pena que os jovens de hoje em dias tenham referências tão medíocres e pobres. Esta lacuna fará muita falta para o futuro deste país.

O ensaio sobre os ensaios

Com o propósito de escrever diariamente neste mês de abril, tive a idéia de tentar coisas diferentes. E nesta fase experimental, a coluna ensaios surgiu. Procuro novas formas de escrita, com novas temáticas. Não quer dizer que eu mudarei a forma com que escrevo por aqui, mas acho interessante esta diversificação.

Segundo definição encontrada em um material didático disponível no site da UFSC, um ensaio nada mais é do que um texto para discutir determinado tema, com base teórica em livros, revistas, artigos publicados e outros meios. Com base nisto, descobri que os textos publicados durante esta semana não representam ensaios própriamente ditos. Com excessão do ensaio sobre a preguiça, e deste texto que agora você lê, as demais publicações não entram no mérito dos ensaios.

Eu tinha o costume de escrever muitos textos durante a faculdade, só que eram temas científicos. Estes eram em sua maioria artigos acadêmicos, revisões de literatura e resumos. E cada um destes possuem um método específico para serem elaborados, fazendo com que a escrita em si se torne mais engessada. E o grande problema disto, é que vários alunos sentem muita dificuldade ao iniciar na escrita acadêmica, e acabam seguindo uma receita de bolo básica que limita o escritor. Rigo (2018), descreve claramente sobre estas dificuldades, principalmente pela confusão que é feita entre as diferentes modalidades de escrita.

Os ensaios, bem como as resenhas não eram modalidades que me foram solicitadas durante a graduação. Creio que este tipo de escrita é mais praticada em cursos da área de humanas, e eu tendo estudado um curso das ciências agrárias, acabei não tendo a oportunidade de praticá-los. Provavelmente eu teria tirado um zero enorme caso apresentasse algum dos meus textos academicamente, mas valeu o teste como experiência.

O ensaio sobre o ócio

Se por um lado comentei ontem sobre a questão de meritocracia x preguiça, por outro lado existe a gourmetização do tempo livre, ou seria ocioso? A título de definição, a idéia de preguiça está ligada a passividade, enquanto que a ideia de ócio está relacionada com atividade. O tal do ócio criativo, de ter que ser produtivo a todo custo, a qualquer momento.

No início da pandemia, durante o confinamento era hype dizer que estava-se fazendo várias vídeo-conferências, cursos online, calistenia, yoga caseira, aprendendo a cozinhar uma receita nova, cuidando dos filhos, reinventando a roda e ajudando o Elon Musk a projetar foguetes domésticos. A palavra de ordem era ser produtivo. Existia um medo infundado de parecer vagabundo, preguiçoso. Mas as definições entre preguiça e ócio são diferentes. Quer um exemplo?

No meu trabalho atuamos sobre demanda. Ou seja, sem demanda, sem atividades. Isto significa que em dias de baixo movimento, ficamos com muito tempo ocioso. Mas, e se eu trocar a palavra ocioso por preguiçoso? Muda o sentido né? Posso ficar com muito tempo preguiçoso, mas isto não quer dizer que eu não tenha o que fazer, mas sim que estou com preguiça de concluir meus afazeres.

Quem sabe com esta mudança de persectiva, Paul Lafargue tivesse escrito O direito ao ócio, já que pela sua ótica, a preguiça seria essencial para a “revolução”. E para pensar em algo produtivo, neste caso a tal da revolução, o sujeito utilizaria do ócio criativo. Se utilizasse da preguiça, nada de revolucionário surgiria, visto que estaria sem vontade alguma de pensar sobre o que quer que fosse. Mas esta conversa toda já me deixou com preguiça. Deixa-me curtir este tempo ocioso que me resta, antes que a vontade de revolucionar alguma coisa me tire da inércia e surja por aqui.

O ensaio sobre a preguiça

Estou terminando de ler O direito à preguiça, de Paul Lafargue. Uma obra de cunho socialista, que reforça o tempo livre como força revolucionária em contraponto ao tão aclamado direito ao trabalho. Não acredito no socialismo, tampouco em revoluções. Entretanto o livro traz um relato interessante sobre o que ocorria na época. Era a Europa pós-revoluções napoleônicas, final do imperialismo.

Lafargue expõe algumas idéias interessantes, que julgo pertinentes à epoca em que foram elaboradas. Dentre estas, a sugestão de que quanto mais tempo trabalhando, menos tempo a pessoa teria para a preguiça. Por conseguinte, não conseguiria pensar por si mesma, e viveria na dependência do senhorio eternamente. Estamos falando em uma época em que até mesmo mulheres e crianças eram submetidas a cargas horárias extenuantes.

Claro que o mesmo comete exageros, como é de se esperar. Por exemplo, ao justificar o direito à preguiça ao mencionar Deus como um grande preguiçoso, ao descansar eternamente ao final do sexto dia da criação. Entretanto ele não cita que na bíblia, a preguiça é condenada, como vemos em Provérbios 13:4O preguiçoso cobiça, mas nada obtém. É o desejo dos homens diligentes que é satisfeito. Ou ainda em Jeremias 48:10Maldito aquele que faz com negligência a obra do Senhor! Maldito o que recusa o sangue à sua espada. Mas percebe-se que ele usa esta analogia como forma de sátira, uma vez que o mesmo julga o capitalismo assim como o cristianismo como formas de aprisionar a sociedade.

Outros autores do mesmo periodo condenam o excesso de trabalho, porém de forma romanceada. Anterior a Lafargue, Charles Dickens em sua aclamada obra Hard Times (1854), apresenta uma versão distorcida de uma sociedade em que a população só existe em razão das fábricas. Em Coketown, os operários são aprisionados não somente pelas suas condições de trabalho, mas também por um estado mental que se confunde com a realidade. Mais uma vez temos o conceito do indivíduo ocupado com o trabalho que não tem tempo para pensar por si. Além disso, ambos autores professam a divisão igualitária e a filantropia como forma mais justa de sociedade.

Entendo que os tempos eram outros, e que mais do que o direito à preguiça, o que estes escritores reinvindicavam era o direito ao descanso, tão básico a qualquer ser humano. Avançando para os dias atuais, prefiro ficar com o ponto de vista da escritura sagrada. Sempre acreditei que não devemos depender de governantes. Se não agirmos por conta própria ninguém nos dará nada gratuitamente. Mas também entendo que para que a minha crença seja totalmente realizável, todos devem estar em condições igualitárias. E sabendo que em nosso país infelizmente isto não passa de utopia, cabe sim ao estado tentar reparar certos danos que se estendem ao longo do tempo. Nunca seremos uma sociedade igualitária, mas se minimamente todos tiverem condições de competir em igualdade, aí sim a meritocracia ditará as regras.

Quem sabe então poderemos desfrutar da preguiça merecida, e não recorreremos a falácias de que se a pessoa não prosperou na vida é por não ter se esforçado o suficiente. Rotular desafortunados como preguiçosos é tão ou mais venenoso do que acreditar que as idéias de Lafarque poderiam um dia ditar as normas da sociedade.