Liverpool VIII

The Final Chapter

Já dizia Marcelo Camelo, todo carnaval tem seu fim. E minha história naquela fantástica cidade também estava perto de acabar. Contei anteriormente que havia convidado um amigo para morar comigo em Liverpool. Infelizmente devido a questões burocráticas, ele chegou na cidade restando somente uma semana para a minha partida. Ainda não era a volta ao Brasil. Eu estava me despedindo do Reino Unido para passar algumas semanas em Portugal, e após esta viagem final, eu retornaria para casa.

Eu já nem sabia direito o que chamar de casa. Vinha de sucessivas mudanças tanto no BR quanto fora, e de certa forma havia perdido a identificação com algum lugar pra chamar de lar. E talvez era esta a razão da minha ansiedade antes de voltar para casa. Eu havia me preparado tanto para viver uma experiência fantástica, e agora ela chegava ao fim. Não sabia o que esperar do futuro.

Naquela última semana fui receber meu amigo no aeroporto. Foi uma alegria muito grande revê-lo, era a primeira pessoa conhecida que eu encontrava em quase um ano. Matamos a saudade e passeamos enquanto deu. Fiz as honras da casa, apresentei a cidade e expliquei como se virar por lá. Ajudei a tirar a sua documentação para se legalizar na cidade. Enfim, passamos bons momentos juntos. Relembramos o passado e comentamos sobre planos. Uma pena que naqueles dias eu estava com uma vibe bem preocupada, diria até ranzinza. Se eu estivesse de humor melhor, ou se eu imaginasse que as coisas se encaminhariam muito bem na minha volta, talvez eu tivesse sido mais leve.

Arrumei todas as coisas, deixei outras tantas para trás. Era a minha vida que eu organizava para levar nas costas, uma nova vida cheia de boas experiências, amigos e lembranças. Estava muito reflexivo e introspecitvo. Parti num voo saindo de Livepool para a Cidade do Porto numa sexta-feira. Depois fui para a casa da minha prima em Portugal, a última jornada antes do retorno.

Liverpool foi mais um sonho realizado. Foi a concretização de uma grande realização, e a confirmação de que quando trabalhamos em prol daquilo que almejamos para a nossa vida as coisas dão certo. Posso definir minha jornada européia como a maior proeza da minha existência, uma espécie de rompimento de limites. Minha vida não foi mais a mesma depois daquilo tudo. Confesso que nem mesmo passados quase dois anos, consigo mensurar o quão fui impactado por esta experiência.

Narradores esportivos #2

Escrevo hoje sobre os narradores esportivos da TV a cabo. Aí se for querer comentar a respeito de todos, acho que seria preciso esticar ainda mais esta mini-série. Gosto muito de assitir transmissões esportivas no geral, sendo que tenho uma quedinha pelos campeonatos estadounidenses. A ESPN é o canal que mais oferece este tipo de modalidade, mas o canal Sportv está abocanhando esta fatia de mercado, visto que transmite várias partidas da NBA e conta agora com Everaldo Marques em sua equipe de narradores.

Na ESPN gostava muito da dobradinha do Eve com o Paulo Antunes, coisa que não será mais possível vermos. A dupla Paulo Mancha e Rômulo Mendonça também impõe respeito. Rômulo vem se destacando mais, principalmente após a saída do Everaldo. Inclusive, é possível acompanhar que o mesmo está narrando mais partidas de futebol, e o faz muito bem. Renan do Couto é outro que passei a admirar mais e que cresce a cada dia. Está agora apresentando alguns programas esportivos. A ESPN possui outros bons narradores, mas com a junção com a Fox Sports, creio que haverão muitas mudanças futuramente.

No canal Sportv, gosto muito do Milton Leite, um dos melhores da emissora. Entretanto, o melhor de todos e que vem ganhando destaque é Gustavo Villani. O cara é tão bom que está sendo cotado para ser o substituto do Galvão Bueno na globo. Só espero que o politicamente correto da emissora não limite o talento deste excelente profissional.

Pra fechar, o André Henning do Esporte Interativo (Turner) é um dos melhores dentre todos os citados. Não sei como o cara ainda não mudou de canal. Emoção é com ele mesmo, faz boas observações durante as partidas e te deixa atento até o final do jogo.

Serra Gaúcha IV

Fauna

Além das plantas, acabei tendo como passatempo fotografar os pássaros e insetos. Quem me via em momentos de folga com a câmera na mão no mínimo pensava que eu devia ser maluco. Vivia olhando para cima, seguindo um canto diferente. Parava, silenciava, ouvia denovo e procurava nos galhos e nas copas das árvores se havia algum pássaro que eu não conhecia ainda.

Lembro de uma espécie em especifico, o Surucuá Variado, que possui o canto bem peculiar, e é muito difícil de ser fotografado. Não por ele ser arisco, pelo contrário. Ele leva a alcunha de dorminhoco exatamente por ficar muito tempo parado na mesma posição. Entretanto, para mim era impossível conseguir uma foto boa do bichinho. O motivo do meu fascínio era as suas cores, se não me engano sete. Está sempre sozinho ou em casal, e vive em matas e florestas da nossa mata atlântica.

O mesmo Surucuá de costas

Haviam várias outras espécies, mas eu não lembro direito o nome de todas. lembro somente do tico-tico, encontrado em qualquer lugar no RS, e do pica-pau amarelo. Se der sorte, vai aparecer uma foto dele aí no final desta postagem. Alguns insetos também me chamavam atenção, mas era mais para a composição de uma imagem bonita.

Uma vez descobrimos numa árvore uma colméia de abelhas jataí, sem ferrão. Elas são minúsculas, e fico imaginando quanto deve custar um pote de mel delas, já que deve ser muito demorado conseguir alguma quantidade do mesmo.

Sugiro como uma boa forma de desestressar observar os pássaros e tentar advinhar quais são, muito melhor que caçar pokemón por aí! Era muito estranho, mas quando eu realmente me concentrava na atividade, eu entrava numa espécie de transe. Sentia uma conexão imensa com a natureza. Era como se nada mais estivesse por ali, somente eu, as arvores e os pássaros.

Para mim parecia que horas haviam passado, mas quando eu olhava o relógio, eram apenas alguns minutos. Eu ganhava mais noção de tempo e espaço.

O simples novamente mostrando que não precisamos de muito para alcançar a felicidade.

Botecos da vila

São José dos Pinhais #3

Toda vila tem seus botecos. Na Vila Bordin não é diferente. Hoje em dia não exitem mais tantos quanto a uns vinte anos atrás. Creio que o costume de frequentar bodegas era coisa dos antigos. Aqui em SJP existem alguns bares bem antigos e tradicionais. Alguns se mantém na ativa como antigamente. Outros se repaginaram e se reinventaram.

Um dos mais antigos é o bar do Zeca, que virou Botecaria Tozo após a administração passar para os filhos. Tenho uma relação peculiar com ele. Meu pai era cliente, e o Bar do Zeca era cliente da minha mãe. Entregávamos vários salgadinhos para serem vendidos nas estufas do balcão diariamente. Eu sempre marcava os doces que eu pegava lá no caderninho, e meu pai ficava uma fera quando ia pagar no final do mês. Tinha o bar do Monarco, que após o falecimento do proprietário virou Bar do Valmor. O bar do Valmor também era nosso cliente. Mudou-se de endereço recentemente, e no mesmo endereço agora temos o bar do Elias.

Fora estes, tinha o bar do Ademir, a mercearia Céu Azul que também era do mesmo estilo, e o bar da Dona Ana. Eu costumava ir escondido no bar da Dona Ana jogar fliperama. Tinha ainda o Bar do Parmera, que ficava bem na frente do colégio em que eu estudava. Íamos para lá depois da aula. Os mais antigos da cidade, já próximo da região central, são o Bar do Beto e o Bar Brasília. Estes dois estão localizados tem mais de cinquenta anos no mesmo lugar.

O Ouro Verde é outro bem tradicional na cidade.

Todo bar raíz que se preze tem fotos de times de futebol nas paredes. Troféus de torneios que eram disputados aos montes antigamente. Aqui na Vila tinha o botafoguinho. Todo bar também possui uma variedade de batidas e misturas alcoolicas nas prateleiras. Tem os vidros de conserva, os azedumes. Os mais tradicionais além de ovo de cordorna, são pepino, vina em conserva e o temido rollmops. Já dediquei uma postagem a este famoso acepipe por aqui. Tem também os tradicionais docinhos pro bebum agradar as crianças quando chegar em casa, os salgadinhos (que minha mãe vendia para vários botecos), e os bolinhos de carne. Eu mesmo conhecia toda essa gama de bodegas pois muitas vezes eu fazia as entregas dos quitutes que a Dona Maria preparava.

Já dediquei algumas histórias as bodegas de SJP aqui no blog. Basta dar uma busca que devem existir umas quatro ou cinco perdidas por aqui. A maioria delas foram inspiradas em episódios ocorridos no Bar do Zeca e no Bar do Valmor. Hoje em dia ainda temos algums destes estabelecimentos históricos da cidade. Entretanto, os antigos frequentadores ou faleceram ou estão idosos ou doentes. O público mudou e estes locais perderam o charme. Antigamente eram estabelecimentos tocados por famílias, hoje em dia nem sei mais o que se passa lá dentro. Mas ficou a memória saudosita de mais uma característica marcante da São José do passado, e que hoje em dia não existe mais.

Boyband

Nunca tive muito apreço por música POP, mas não podemos negar que as boyband influenciaram muitos adolescentes nos anos 90 e 2000. Me lembro que o boom foi lá pela metade dos anos 90, principalmente com os Backstreet boys, Hanson e Nsynk. Tinha na época várias outras, mas como era modinha, ninguém se lembra mais. Fenômeno parecido com o sertanojo atual, onde surgem cada dia mais duplas de muito sucesso hoje e que amanhã ninguém mais lembrará que existe (Alguém ainda lembra de Maria Cecília e Rodolfo, ou de João Lucas e Marcelo?).

Todo menino adolescente dizia que odiava, mas escondido assistia os clipes na MTV e até imitava os cortes de cabelo. Basta ver algo que era muito comum na época, quando um loiro do BSB usava cabelo tigela divido ao meio, bem como Leonardo Dicáprio e Matt Daymon. Tendências que vão e vem, e hoje achamos ridículo. Toda menina tinha vários posteres na parede do quarto, e deixavam marca de beijo de batom em seus favoritos. Inclusive, mandavam bilhetinhos apaixonados para os meninos com frases românticas de músicas, que na maioria das vezes o meninos não entendiam pois pouco conheciam destes grupos.

Voltando um pouco mais no tempo, os grupos Dominó e depois Polegar faziam a cabeça nos anos 80. Por curiosidade resolvi ouvir algumas músicas de ambos os grupos, e surgiu na memória muita coisa da minha primeira infância, principalmente na música Ela não liga do Polegar. Lembro que mesmo sem saber do que se tratava, eu cantarolava no chuveiro lá pelos cinco anos de idade. E haja exercício de memória para lembrar duma coisa dessas.

Analisando pelo lado musical, as músicas dos anos 80 eram bem executadas e tinham mais instrumentos. Não tinham tantas batidas eletrônicas como as atuais. Um exemplo de como haviam bons músicos, é de que Kiko Loureiro, um dos melhores guitarristas do mundo em minha opinião, já tocou na banda de apoio do Dominó. Se pegarmos as letras, eram bem escritas e não falavam de mexer as cadeiras (para não dizer coisa pior e baixar o nível por aqui). Algumas tinham até crítica social, como Tô P. da Vida. Mesmo eu que possuo minhas raízes rockeiras, bem ou mal, não nego a importância do estilo em nossa cultura.

Aparelho ortodôntico

Se tem uma coisa que muitos reclamam sobre mim, é na hora de tirar fotos. Raramente eu saio sorrindo nelas, e todo mundo me xingava quando rolava aquelas selfies coletivas! A questão toda é que eu nunca gostei do meu sorriso. Sempre tive vergonha, achava ele estranho. Há muito tempo eu pensava em resolver este problema, mas quando eu tive condições de colocar este plano em prática, acabou que eu descobri aquele cisto enorme no céu da boca. E lá se foram cinco anos dentre tratamentos, duas cirurgias e o periodo de cicatrização para finalmente colocar o bendito aparelho.

Após retornar pra casa depois de praticamente dez anos explorando outras terras, arrumar os dentes foi uma das coisas prioritárias. E lá se foi aquela sessão toda de arrancar todos os sisos e fazer exames para me certificar que estava tudo bem com a recuperação dos procedimentos para retirada do cisto. Finalmente acabei colocando o tal do aparelho ortodôntico depois de anos de espera.

Confesso que senti no início uma baita vergonha. Me sentia um adolescente, um desajustado ou coisa assim. Ficou muito estranho à primeira vista, incomodava muito, parecia que eu estava com um cabresto. Cortei a boca toda, tive que reaprender a falar direito, e fora a bendita dor daquele troço puxando meus dentes. Batia os dentes de cima nos braquetes de baixo, e acordava com uma baita dor ou choque. Acho que o pior de tudo foi quando comecei a ter deslocamento de mandíbula. Uma das piores sensações que já tive. Escovar os dentes virou uma verdadeira arte, passar fio dental então nem se fala. Churrascaria nem pensar, muito menos grandes hamburgueres ou qualquer coisa que exija maior potência na mastigação.

Pormenores resolvidos, lá se vão mais de um ano que eu uso o aparelho ortodôntico. Ouvi muitas opiniões de pessoas que utilizaram depois de adultas, reclamando do pouco resultado. Mas, aí creio que vai muito do profissional que você contrata. Tive sorte de pegar uma ótima ortodontista, e já consigo perceber uma grande evolução e melhora tanto na parte estética como na funcional. Já não tenho vergonha de sorrir, mesmo saindo com os dentes cinzas em qualquer foto. Não vejo a hora de tirar esse negócio, mesmo já estando acostumado e muitas vezes nem percebendo mais que o uso. Mas, no final creio que terá valido a pena.

Fuerza Natural

Gustavo Cerati foi o vocalista da banda argentina Soda Stereo. Um dos melhores grupos de rock que já conheci, no mesmo patamar de Legião Urbana. Uma pena que talvez pela barreira da língua o grupo não ficou tão conhecido por aqui. Mas, nunca é tarde para novas descobertas, não é mesmo?

Após o fim da banda em 1997, Gustavo Cerati empreendeu sua carreira solo, e continuou muito aclamado pelo público. Gustavo lançou no total cinco discos de estúdio. Em 2010 ele sofreu um AVC após um show na Venezuela, e ficou em coma por quatro anos. Veio a falecer em 04 setembro de 2014, ou seja, há exatos seis anos. Como forma de homenagear este que considero um dos maiores cantores da música latina, falarei a respeito dos seus álbuns durante sua carreira solo.

O último lançamento foi o disco Fuerza Natural, de 2009. Este disco em minha opinião foi o melhor de todos. Lembro que costumava viajar por longas horas no tempo em que morei no RS pela primeira vez, e este álbum era companhia certa durante o trajeto. O álbum abre com a faixa-título Fuerza Natural, e mostra uma das grandes qualidades de Cerati – a mistura de rock com elementos eletrônicos. São poucos os músicos que conseguem mesclar estes ritmos de forma perfeita, e Gustavo era mestre neste quesito.

Uma das minhas músicas favoritas, Magia, diz “Tal vez parece que me pierdo en el camino, pero me guia la intuición… Hoy, el viento sopla a mi favor, Voy a seguir haciéndolo“. Na letra de Tracción a Sangre, percebemos o amadurecimento de Gustavo ao dizer “Tal vez lo más suicida sea decirte la verdad, Preferí callar A esta hora de la vida es lo mejor“. Rapto foi outra canção que fez muito sucesso, porém aquela que eu gosto mais deixarei abaixo para encerrar este artigo. O disco encerra uma série de canções mais intimistas e acústicas, e uma certa dose daquele sexto sentido que todo artista possui.

Ouvir Gustavo Cerati hoje em dia, em especial este disco, me traz boas sensações e uma dosezinha de frustração. Uma das metas da minha vida era algum dia ver um show dele ao vivo, coisa que infelizmente não será mais possível.

Paixões da infância

Qual era a paixão que você tinha na infância e que a vida adulta deixou para trás? Eu tinha três: andar de bike, ler revistas em quadrinhos e criar minhas próprias histórias. A bicicleta eu resgatei já fazem uns dez anos, e as histórias em quadrinhos eu resgatei a pouco mais de dois meses.

Engraçado, mas ao invés de tentar ler algo mais adulto, ou que talvez se encaixe melhor com a minha atual fase, eu optei pelos quadrinhos da disney. E mesmo que as histórias não tenham a mesma graça, eu continuo me divertindo com elas. Estou percebendo que os quadrinhos me ajudam a desenvolver a minha criatividade e meu foco em detalhes. Creio que o resgate do lúdico me ajuda a desligar da vida real, da vida moderna. Eu leio os diálogos e presto atenção nos detalhes das cenas. Tão mais visceral do que simplesmente ver um vídeo, acho que aguça mais os sentidos. Fora a contemplação de silêncio e o cheiro das folhas antigas.

A criação de histórias vão e voltam. Tem dias em que estou mais inspirado, em outros menos. O cachorro magro é o maior exemplo desta paixão antiga. Já os passeios de bicicleta foram a melhor forma que encontrei de praticar uma atividade física enquanto conheço novos lugares. Gosto muito da bike não somente para deslocamentos curtos, como ir ao trabalho, mas também para conhecer melhor os cantinhos da minha cidade. Se estou de bobeira e o clima colabora, lá vou em um passeio curto conhecer um novo bairro. Se tenho mais tempo, me planejo melhor e vou para a zona rural do município. E mesmo que eu faça muitas vezes o mesmo trajeto (eu tenho o meu favorito que jamais enjoa!) sempre percebo coisas novas pelo caminho. Serve também para por as idéias em dia e ter aquele momento comigo mesmo.

E você, quais as paixões da infância que foram ou precisam ser resgatados? Manter o Nano lá dos oito anos de idade ativo auxilia muito este Juliano dos trinta e poucos a ser um homem melhor a cada dia!

Liverpool VII

Irmão de alma

O capítulo de hoje inicia-se antes mesmo da minha viagem começar. Lembro que avisei para alguns amigos mais próximos sobre a minha decisão de ir para a Irlanda cerca de seis meses antes da viagem. Eu já havia fechado os contratos há pelo menos quatro meses. Então, meu melhor amigo de infância e irmão de alma me disse que estava tirando cidadania européia e que em breve também iria para lá.

No momento eu fiquei feliz por ele, mas não sabia o que dizer. Ele meio que deu indiretas de ir para onde eu estava, afinal facilitaria tudo para ele. Apesar de eu não dizer que não, também não me animei com a idéia. Eu não queria ser responsável por ninguêm lá, já seria um fardo enorme cuidar de mim mesmo em outro país. Também não poderia deixar ele na mão, poderia se dar mal sozinho.

Eu já estava na Irlanda, e ele a cada momento me dizia uma coisa. Iria pra Portugal, depois pra Itália, mudou pra França, Bélgica, e por fim decidiu Londres. Coitado tava mais perdido que não sei o que. Em nenhum momento eu o incentivei a ir para a Irlanda, afinal ele estava indo com o inglês muito básico e eu pressentia que não seria uma boa para ele aquele lugar. Até pela razão de que em breve eu iria embora de lá, e nós não nos encontraríamos no país.

Quando ele disse que iria pra Londres, eu já havia fechado tudo para ir para Liverpool. Não quis me precipitar e mantive-me neutro. Mas, a cada dia me preocupava mais, pois ele me disse que ficaria na casa de sei lá quem que conheceu num grupo de facebook. Aliás, eu sempre dizia para não confiar nesses grupos, que era furada. Ninguém ajuda desconhecidos de graça, ainda mais imigrante fora do país.

Depois que eu me instalei na cidade, e vi que poderia ser um bom lugar para ele começar, resolvi fazer o convite. Eu percebi que Liverpool era uma cidade de tamanho razoável para se virar, relativamente fácil para arrumar emprego mesmo com inglês básico. Além disso, eu estaria lá, poderia ajudar em sua adaptação. Então eu, pela primeira vez sinalizei sobre a possibilidade de nos encontrarmos por lá. “Por quê não vem aqui pra Liverpool, acho que irá gostar daqui“. Pude sentir seu alívio e felicidade na hora. Acho que ele me abraçava se pudesse naquele momento. Fiquei muito feliz com aquilo, e aliviado por saber que teria minha missão cumprida.

A Vila

São José dos Pinhais #2

Engraçado dizer isto hoje em dia, mas eu gosto muito do bairro onde moro. Nasci e cresci por aqui, e como já mencionei em O lugar perfeito, desde muito novo eu tinha a sensação de que este não era o meu lugar. Sempre ansiei poder morar em outros locais, desbravar este Brasilzão e por que não dizer o Mundão afora. Morei até agora em três estados e seis cidades por aqui, e dois países fora. Soma-se então oito lugares diferentes, sem contar as mudanças de bairro dentro da mesma cidade.

Acontece que há cerca de cinco anos atrás, crescia em mim a necessidade da volta as origens. Hoje percebo que talvez eu tinha que sair do ninho para crescer, virar gente grande. Durante vários momentos enquanto estive fora, eu sentia falta de algo. Não era somente da família, era uma sensação de pertencimento. Sabe aquela coisa da piada local, das coisas que quem é de fora não percebe. Morei por vários anos num dos locais que talvez seja um dos mais bairristas do país, e até que me encaixei bem. Mas não era a mesma coisa. Queria poder falar sobre os acontecimentos locais, sobre as lendas urbanas, o futebol daqui. Coisas que não fazem sentido quando estou em outra região.

Gosto de frequentar os locais da minha infância, ainda que muito tenha mudado. Meu bairro mudou muito, minha rua mudou. Não temos mais as mercearias de antigamente, não tem os botecos de esquinas em que eu costumava comprar doces e entregar os salgadinhos que a Dona Maria fazia. Nem mesmo as casas antigas existem mais, aquelas com grandes jardins e quintais ao fundo. Apesar disto, algumas coisas não mudam, a vizinhança é praticamente a mesma, as padarias são as mesmas, a escola onde eu estudei e até aqueles que conheci em grande parte continuam por aqui. E o mais importante, a essência continua a mesma. Aquele misto de passado que revisita o presente. Minhas raízes estão aqui, e é por isto que eu amo tanto este lugar.

Pode ser que eu venha a me mudar novamente, creio que uma vez que a gente se desprende torna-se difícil parmanecer pra sempre. Mas ainda que isto ocorra, vou sempre falar com orgulho da minha terra, e denunciar na minha fala através de meu sotaque de onde são as minhas origens.