Cachorro Magro

Na postagem inaugural do blog eu comento sobre a escolha do nome. No entanto, eu nunca esmiucei esta escolha a fundo. Depois de ouvir a música novamente, e de finalmente conseguir achá-la no youtube para inseri-la em um texto, chegou o momento.

A música foi lançada no álbum da banda Terminal Guadalupe lançado em 2007, entitulado A marcha dos invisíveis. Esse é outro daqueles que poderiam perfeitamente se encaixar na coluna dos discos perfeitos, mas creio que a menção honrosa desta postagem já se faz suficiente. Na época da criação do blog eu ouvia muito este grupo. Entretanto, Cachorro Magro chamou-me muita atenção, devido a sua letra se encaixar perfeitamente naquele momento da minha vida.

Momento este de mudança, de solidão, de descoberta e de ter que aprender a me virar por necessidade. Por este motivo uso parte do refrão como subtítulo “Cachorro magro sem nome, andando por aí, pela cidade. Cachorro magro não tem fome, tem necessidade“. Eu também andava por aí, pela cidade. Naquela época Marau, a famosa Colonha, em que tinha que descobrir desde o mercado para fazer compras até achar algum encanador de confiança e que não tentasse me passar a perna.

Todo dia tem vai e vém de toda parte, ninguém te olha, ninguém te acolhe, as ruas sem fim” é outro trecho que representa bem a sensação de não pertencimento do recém chegado na cidade. Além disso, a solidão e a falta de alguém a quem recorrer pode ser descrita em “Outro dia tinha a quem chamar, agora o que restá é a voz pra berrar bem alto, no asfalto”. Pode parecer um pouco dramático, mas era o sentimento que eu tinha. Muito mais de empolgação e desafio das descobertas do que o desalento propriamente dito. E não havia nome melhor pra escolher. Encaixou perfeitamente, tanto que o mesmo me acompanha a mais de dez anos no mundo da blogosfera. E o seu site, como foi batizado?

A vida num sopro

Três eventos recentes me deixaram muito reflexivo ultimamente. O primeiro deles, já não tão recente assim, foi a doença do meu pai. Relatei neste texto um pouco sobre esta experiência. Os outros dois ocorreram nos últimos dez dias. Comentei na última postagem que sofri um pequeno acidente ao visitar uma cachoeira. Foi pequeno, mas poderia ter sido grave. Mas deixou consequências as quais ainda desconheço totalmente.

Estou numa bateria de consultas e exames, pois percebo que algo de errado não está certo. Bater a cabeça com força a primeira vista não trouxe grandes problemas, mas com o passar dos dias eu já percebi algumas alterações. Não sou mais tão jovem assim, e preciso cuidar melhor da minha saúde. Somos muito desleixados com a nossa saúde, principalmente os homens, que sõ procuram o médico quando sentem algo. Eu até posso dizer que fujo um pouco do padrão, visto que vez ou outra procuro fazer uma revisão geral.

Na terça-feira da semana passada eu perdi um grande amigo. Repentinamente. Jovem, iria completar 21 na semana que vem. Descobriu que tinha leucemia tarde demais. Não deu tempo de fazer nada. Ninguém esperava por isto. Estive com ele cerca de um mês antes, comemorando sua mudança de emprego. Tão jovem, sonhador, cheio de planos. Estava apenas descobrindo o mundo. Depois da morte da minha mãe, nunca uma morte havia me impactado tanto. E olha que já perdi pessoas queridas precocemente.

Estou muito reflexivo desde então. O que ando fazendo da minha vida? Como estou cuidando dela? O que faço pelas pessoas que eu amo? Hoje estamos juntos, amanhã já nem sabemos mais. Creio que desde novo, quando minha mãe faleceu, que eu procuro não guardar mágoas nem ressentimentos. Aprendi cedo que isto é coisa da vida, e que quanto antes ficarmos bem com quem amamos, melhor estamos fazendo para nós mesmos. Hoje eu me despeço por aqui, um pouco triste, ainda surpreso e abatido pela perda de um grande amigo. Hoje saio muito pensativo, reflexivo, mas ao mesmo tempo com um sentimento inexplicável de querer viver a vida, de celebrar a minha vida, mesmo que o momento não seja assim tão apropriado.

Cachoeira dos Ciganos

SJP #8

Vez ou outra eu vejo quem gosta de pedalar falando sobre a grandeza das pedaladas difíceis. Honestamente eu achava que isto era uma romantização da bicicleta, exagero. Alguns dizem que chegam a ter uma espécie de experiência transcedental, coisa difícil de alcançar de outro modo. E eu, não sei não, sempre achei esse papo muito estranho.

Só que no último sábado foi diferente. O caminho escolhido desta vez foi árduo, muito sobe e desce, estrada ruim. Mas o destino final compensaria. A cachoeira dos ciganos, um pouco depois do Córrego fundo, próximo da Usina de Guaricana. Minha querida SJP e suas ruralidades, e eu querendo desbravá-la. Antes do destino, uma pequena trilha para chegar até a cachoeira. Só que a pequena trilha não era tão amistosa assim. Sobe e desce morros, pisa nas raízes, agarra aqui, escorrega ali, escorrega denovo e… Eis que sofro um acidente, pancada na cabeça. E das grandes, foi forte. E eu no meio do nada, eu a cachoeira, e minha cabeça confusa e assustada.

Ainda bem que sozinho eu não estava, tive dois amigos junto. Se não fosse eles, não sei o que seria. Foram talvez a motivação para esquecer da dor no corpo (sim, bati o joelho e o braço junto nesta queda). E fomos pela travessia do rio por infinitas vezes. E em cada pedra que eu pisava, uma tontura que vinha, o pavor de outro tombo. Não quero mais brincar, tô de mal. Não, aqui não tem disso. Só mais um pouco, era o meu mantra, só mais um pouco. Ao retornar da trilha e chegar na estrada, um alívio misturado com desespero. Ali caiu a ficha: meu deus, e se acontece algo mais grave? Ali, no meio do nada, nem sinal de telefone chega. Mas por obra dos deuses, nada grave ocorreu. O desafio agora seria a volta.

Se na ida já foi um sacrifício, quem dirá a volta, cansado, molhado, todo sujo de barro, com a cabeça inxada (literalmente), um corte na testa e um joelho latejando. E lá vamos nós novamente, sobe e desce, cascalho e saibro, come muita poeira, outra subida, e mais outra, e mais outra. E tem aquele velho ditado, ah depois de uma subida sempre vem a descida. Mas, nesse caso vinha outra subida (e olha, eu nem lembro de ter descido tanto assim na vinda).

E naquele silêncio da volta, só os sons da natureza, do giro dos pneus. Três amigos em silêncio, cada um acompanhado de seu mundo interior, sua própria mente. Eu, por alguns momentos esqueci das dores, dos perrengues, da fome. Me concentrei somente em pedalar, giro por giro, respirada por respirada. Acho que pude compreender aquilo que não entendia no início do texto. E após uma visita ao hospital para garantir que não foi nada grave, estou quase pronto pra próxima. O joelho dói, e enquanto o galo desincha, termino este texto e agradeço por ter saúde e o privilégio deste tipo de experiência.

SJP e sua enormidade territorial. Acima a pequena Curitiba, quase nada comparada à minha querida cidade!

Boca Maldita

Apesar de preferir minha querida SJP, tenho um carinho especial por Curitiba. Estudei e trabalhei por vários anos na cidade, e durante meu periodo universitário tive a oportunidade de desfrutar tudo aquilo que a cidade me ofereceu. E não existe somente uma Curitiba, existem várias. Tudo depende do ponto de vista e da experiência pessoal de cada um. Tenho meus locais favoritos, dois para ser mais preciso. Hoje falo do primeiro deles.

A boca maldita pode ser considerada o fim da rua XV, ou o início, a depender de qual direção você vem. Oficialmente, a rua XV de novembro inica-se no bairro que leva o seu nome (Alto da XV). A rua muda de nome após a Av. Victor Ferreira do Amaral – importante ligação com o lado leste da cidade – passar por debaixo do viaduto Linha Verde, próximo à Praça da Bandeira. O calçadão da XV, onde os carros não tem vez, inicia-se no prédio histórico da UFPR, na praça Santos Andrade. Alías, o prédio vale uma visita. O acesso é permitido somente para a comunidade da universidade, mas basta dizer que você está indo no DAA que tudo se resolve.

O calçadão da rua XV tem uma diversidade de vida para todo lado. Pessoas apressadas indo e vindo, artistas de rua, vendedores das mais diversas quinquilharias, comércio diversificado e alguns estabelecimentos bem charmosos. Os mais legais são a Confeitaria das Famílias, muito tradicional, e as galerias que cruzam até a Av. Marechal Deodoro. Nunca sei o nome destas galerias, mas dia desses eu tive que cruzar uma delas sentido a outra Marechal, a Floriano, e acabei me deparando com um charmoso café. Além do ambiente aconchegante, o capuchino é um dos melhores da cidade. Fora isto o proprietário é uma atração à parte. Um americano do estado do Colorado, sempre simpático e disposto a conversar. Com seu sotaque carregado cativa quem por ali resolve adentrar, e ainda é uma boa opção para treinar o seu Inglês caso seja esta a sua vontade.

Voltando para a rua XV,o Palácio Avenida é outra ponto tradicional, principalmente na época do natal, quando ocorrem as apresentações do coral do Palácio Avenida. Já quase ao final do calçadão, temos o bondinho da XV. Monumento histórico onde é possível deixar as crianças brincando enquanto você faz suas coisas na XV. Quando eu era criança eu vivia lá, e adorava.

Bondinho com o Palácio Avenida logo ao fundo

Após o bondinho temos a Boca Maldita propriamente. O nome do local, a esquina da rua XV com a rua Ébano Pereira, ganhou este nome nos anos 50, pois era onde a bohemia curitibana se reunia para discutir política, futebol, ou os demais assuntos do momento. Acabou virando ponto de encontro de manifestações de diversas naturezas e demandas, e a tradição mantem-se até hoje. Além das manifestações situam-se ali malucos de toda sorte. Não acredita, basta conferir no vídeo abaixo.

Um local que fervilha história, e que termina na praça Osório, e conta com a famosa Feirinha da Osório, temática de acordo com a época do ano. Se for até la, não deixe tomar um quentão com gemada, ou de degustar algum prato da culinária variada das barraquinhas. As mais tradicionais são dos colonizadores da cidade, com destaque para os poloneses e ucranianos. Eu prefiro o xis pernil, mas vez ou outra eu visito as outras barracas para provar a diversidade do local. Enfim, esta é a minha Curitiba. Ou uma delas, das tantas faces e cantos que nunca canso de explorar.

Até logo!

Levantei por volta das cinco da manhã naquela sexta-feira diferente. Não precisava ser tão cedo, mas eu queria desfrutar dos últimos momentos em casa. Não preparei café a esta hora para não acordar meus pais. Saí da cama nas pontas dos dedos e espiei pela porta entreaberta, estavam dormindo. Observei-os por uns trinta segundos, e meus olhos marejaram. Resolvi sentar no quintal por alguns minutos, e na hora vieram lembranças de tudo o que passei durante os 25 anos em que morei por ali. Haviam quase dez que eu tinha partido, mas agora o sentimento era diferente.

Aproveitei para conferir todos os ítens da minha bagagem, uma última checagem para ter a certeza de não ter deixado nada de lado. Não poderia cometer esse erro, afinal eu provavelmente retornaria somente no próximo ano. Se eu retornasse. Minha madrasta ouvindo minha movimentação levanta e prepara o meu café. Checo novamente a papelada e me preparo para o último banho. Tomo café com calma agora com meu pai também já de pé, não conversamos muito. E nem precisava. Eles sabiam o quão importante era aquele dia para mim. Percebo a cara de apreensão em seus rostos, mesmo eles tentando fingir e passar tranquilidade.

Termino de me aprontar e ouço a buzina no portão. Era a minha irmã chegando para me apanhar. Arrumo todas as coisas no porta malas do carro, e me despeço com um forte abraço em meu pai. Já estávamos acostumados a despedidas, visto que entre idas e vindas, aquela cena se repetira dezenas de vezes. Após um vai com Deus meu filho, respiro fundo trancando o choro na garganta. Mas era um choro de felicidade. Finalmente após anos de planejamento, após um ano e meio de trabalho duro, catorze horas por dia em dois empregos, após ter enfrentado duas cirurgias delicadas no palato, finalmente eu atingia meu grande sonho.

Minha irmã me deixa no aeroporto e me ajuda com as bagagens. Estava tudo muito bem acondicionado, mas ainda assim por segurança resolvo envelopar a minha backpack. No saguão uma voz anuncia a hora do embarque. Despacho a minha bagagem e me sento para tomar um último café. Após alguns minutos de conversa trivial, chega a tão esperada hora. Um longo abraço e ela diz se cuida, com a voz trêmula, a segurar o choro na garganta. Uma despedida feliz mas dolorida, como se não fosse um até logo, uma incerteza.

Já sozinho adentro o portão de embarque e me preparo para embarcar. Recebo de última hora uma ligação da minha querida tia Sueli desejando sucesso na empreitada. Já na aeronave me acomodo em meu assento. Agora a aventura começava. O que viria pela frente seria um mistério, e eu estava muito feliz, empolgado, e com um borboletário no estômago. Era meu corpo me lembrando de como era bom me sentir vivo. O avião decola, e da janela observo em miniatura a minha querida São José dos Pinhais, que mais uma vez ficava para trás, mas que assim como minha família, sempre estaria ali aguardando pelo meu retorno.

Cliffs of Moher

Existem algumas experiências em que podemos dizer que zeramos a vida. Ou, simplesmente podemos dar aquele check nas coisas feitas antes de morrer. Durante meu intercâmbio, eu tive a oportunidade de ter 4 dessas experiências que entraram no meu caderninho daquilo que jamais esquecerei. Já escrevi sobre duas delas aqui e aqui. Entretanto, a primeira de todas, e talvez a mais impactante foi a visita aos Cliffs of Moher.

Os Cliffs são falésias que se extendem ao longo de oito quilômetros no sudoeste da Irlanda. O ponto alto pode atingir 214 metros de altura. Sâo um importante destino turístico do país, e ficou famoso por ter sido cenário de alguns filmes, dentre eles de Harry Potter and the Half Blood Prince (2009). Já comentei antes que não gosto da saga Harry Potter, apesar de ser obrigado a assisti-la em sequência, e de ter visto no cinema por engano a um dos filmes da série (um dia contarei essa história).

Nunca pensei que mencionaria Harry Potter por aqui, realmente não gosto da série.

No dia que visitei era um domingo de primavera irlandesa. O que não quer dizer muito, afinal naquela terra quase sempre é chuva e frio. E não foi muito diferente na minha vez. Muito vento e frio, o que melhorou e muito a minha sensação de espanto com tamanha obra da natureza. Foi uma conexão sem igual, uma amostra de quão infinitamente pequenos somos diante do infinito.

Foi uma celebração da vida e da amizade, afinal eu estava bem acompanhado. Mas, a grande experiência foi comigo mesmo, o contato com a natureza. Não existe proteção alguma entre a parte de cima e o mar lá embaixo, e em alguns pontos é possível chegar bem na beirada. Esta espécie de contato com a possibilidade da morte, ali, a um passo, nos faz lembrar ao mesmo tempo que a vida é tudo e nada. Existe inclusive algumas placas alertando para que pessoas com sintomas de depressão não ultrapassem um certo ponto. Mas, ao sair dali, a sensação de vivacidade aumenta, e passamos a compreender um pouco mais a essência de nossa existência. Ao menos foi essa a impressão que eu tive. Um lugar para jamais me esquecer.

Around the Sun

Discos Perfeitos #4

Há algum tempo atrás eu escrevi que não ouvia mais nada de novo. Que para mim a música havia morrido na metade dos anos 2000. Para minha sorte, os serviços de streaming surgiram para que eu revesse meus conceitos. E olha, preciso agradecer demais aos algoritmos que mapeiam meus gostos e vez ou outra me presenteiam com gratas surpresas. Foi assim quando conheci Bain, um grupo de Minnesota.

Bain é uma banda de soul music, inspirada em R&B, funk, jazz e rock. Around the Sun (2019), é o segundo álbum do grupo. Mas antes de falar sobre este disco, eu gostaria de deixar abaixo uma amostra ao vivo do que estes caras são capazes. Sério, presta atenção a partir dos 4″00 min. Perceba os solos de metais, o desempenho dos vocais femininos, e a energia boa que a banda passa para o público. Vai dizer que não dá vontade de ficar ouvindo esse som repetidas vezes. Não tem como não ficar revigorado e de bem com a vida depois disto.

Around the Sun abre com Just Begun, uma celebração ao amor, uma canção que abre a festa que está só no começo. A terceira faixa, Love Safe, é uma das pancadas do disco: “Daylight, shine upon me, Lift this weight of the world, Feel that freedom of the sun, So nice, the way you show me,To lay down my sword, And these tides of love will pull us through this storm“.

A segunda metade do álbum começa com Summer, outra daquelas para se ouvir bebendo algo e curtindo o sol se por, seja na praia ou na beira da piscina. Understanding, uma parceria com a belíssima voz de Kendra Glenn completa esta vibe de final de tarde dum feriado. Cada uma das músicas é capaz de despertar sensações ao serem ouvidas. E a mais impactante de todas é a faixa-título Around the Sun.

Antes de ver o videoclipe, eu tinha a sensação de estar na chuva, a noite na cidade movimentada, dentro de um carro me deslocando para um pub. Sabe aquele momento de ver as gotas de água no para-brisas, pensar sobre a vida. Sério, era isso o que eu sintia ao ouvi-la. Até ver o vídeo. Então tudo se encaixou, perfeito. Acho que nunca um clipe e uma música fizeram tanto sentido para mim. Mas chega de papo, tire suas próprias conclusões.

Esperanza

Gosto muito do nome Esperança. Parece nome de personagem de novela mexicana. Parece o nome da tia da escolinha que trabalha com a tia Edilamar. Segundo a definição, esperança é confiar em coisa boa, ou sentimento de quem vê possível que algo aconteça. Mas para mim é mais do que isso. Trata-se de aproveitar cada pedacinho do que resta.

Esperança é ouvir as mesmas histórias sobre o tempo da Infraero umas cinquenta vezes, e se fazer de interessado e surpreso a cada uma delas. É rir junto das peripércias da cadelinha Maia, ou das descobertas da primeira bisneta. É se fazer presente, mesmo estando cansado, mesmo querendo ficar só. É entender das limitações da idade, é um exercício de paciência todo dia.

Esperança é chorar junto ao se emocionar com as lembraças da Dona Maria. É confortar, é oferecer um abraço confortável, ou somente um braço para servir de apoio para aqueles passos difíceis, lentos e meio desequilibrados. Esperança é incentivar, dizer que vai dar certo. É dizer palavras de incentivo, mesmo ao ver que agora aquele que tanto incentivou é quem precisa ser incentivado.

Esperança é não contar mais as horas no relógio. É focar no presente, aproveitar cada segundo. Esperança é entender que a situação é sim difícil, mas que é preciso encarar de frente. Não entrar em desespero, que alías, é o contrário da esperança. E enquanto houver a chama da vida, mesmo que bruxuleante, branda, enquanto houver a luz, ela estará lá. A esperança. A razão de seguir em frente, de fazer sempre um pouquinho a mais. Nem que esse pouquinho a mais seja levar um cafézinho quentinho na cama. Nem que seja ficar quieto ao lado ouvindo a respiração, oferecendo segurança. Oferecendo esperança. Sempre.

Apesar de católico, admita – você anda falhando na fé. Na fé não, já que a fé não costuma falhar. Você está desleixado com seus compromissos na igreja. Onde foi parar aquele bom rapaz que na mocidade frequentava sempre os grupos de jovens e acompanhava a mãe nas missas? Aquele menino que seguia as novenas e sabia todas as rezas decor, conhecia até mesmo as inúmeras facetas das intermináveis e morosas ladainhas, o que houve afinal?

E não me diga que perdeu a fé. Ainda vejo você rezando o terço antes de dormir. Me diga, qual o nome do padre da nossa paróquia? Quem são os ministros da eucaristia, alias, qual foi a última vez que você comungou? Vou mais longe ainda, qual foi a última vez que você confessou seus pecados? Deus a gente procura não somente quando se está na pior. Coisa aliás, que o senhor é muito bom em fazer. Pede conselhos aos céus quando as coisas não correm lá muito boas, mas esquece de agradecer quando alcança as suas graças.

Tá certo, não posso exagerar. Ingrato você não é. Paga suas promessas, e até foi ao santuária de Nossa Senhora de Fátima agradecer pela sua jornada européia antes de voltar pra casa. Mas, e depois? E agora? Não está na hora de voltar? Nossa fé é igual a uma plantinha, quanto mais se rega e se cultiva, mais se fortalece. Afinal, a fé nos faz crer no incrível, ver o invisível e realizar o impossível. Pensa nisso.

Rivalidade Profissional

Zootecnando #1

Muitos dos que me acompanham aqui já sabem, sou formado em Zootecnia. Uma profissão menos conhecida, mas muito importante para o agronegócio brasileiro. Devido ao fato de ser uma profissão regulamentada relativamente nova, sofremos alguns percalços, como limitações legais para atuar em algumas atividades, bem como ter a concorrência de outras profissões que acabam englobando nossas atividades. Entretanto este cenário vem mudando aos poucos, e pra ser honesto, nunca tive dificuldade de arrumar emprego devido a minha formação.

Preconceito isso sim já sofri. Piadinhas, desconfianças, aquela coisa de ter que provar o meu valor e trabalhar dobrado para conseguir o mesmo reconhecimento. Só que este tipo de situação ocorreram pouquíssimas vezes. E ao meu ver, era muito mais a ameaça que eu causava e a falta de confiança própria destes profissionais em questão que os faziam ter este tipo de atitude. Em 99% das vezes eu não tive problema algum de relacionamento profissional com agrônomos e veterinários. Muito pelo contrário, fiz vários amigos na área, sou sempre lembrado e bem recomendado. Foi alías graças a ajuda de um amigo agrônomo, meu ex-orientador de estágio de conclusão de curso, que hoje voltei a atuar na zootecnia.

Esta questão de briga de classes não é exclusiva das profissões ligadas ao agronegócio. Isto existe em qualquer meio, mas hoje eu vejo que fica muito mais na esfera teórica do que prática. Na época da faculdade esta rivalidade era muito mais acentuada, hoje em dia eu nem a percebo mais. Durante meu periodo de estágios durante a graduação, passei a maior parte do tempo em laboratórios e pesquisas voltadas à medicina veterinária, com alunos deste curso. E mesmo com as piadinhas (de ambos os lados), sempre trabalhávamos em prol do objetivo comum. O que importa mesmo é que o profissional, independente da formação, deve ter consciência de sempre buscar o seu melhor.

Onde trabalho atualmente é com certeza o local com a maior quantidade de zootecnistas com quem já trabalhei. Profissionais de titulação alta, com mestrado e doutorado, e isto para mim tem sido ótimo. Trocar conhecimentos profissionais e aprender muito com todos. Mas, como mencionado antes, a formação pouco importa. Tanto que a pessoa com quem mais eu tenho aprendido nestes meses de adaptação ao novo emprego é formada em química. E tem sido uma experiência ótima, esta multidisciplinaridade só tem contribuído para o enrequecimento profissional de todos, e para o alcance dos resultados esperados.

Toda sexta-feira realizamos uma teleconferência com os profissionais do nosso setor que atuam nas unidades espalhadas pelo Brasil. Discutimos um tema pertinente ao setor, e compartilhamos dúvidas e casos de sucesso. Todo mundo sai com um conhecimento novo. Confesso estar animado com o cenário atual, e espero continuar desta forma. Poder trabalhar no agronegócio mesmo morando num grande centro urbano é coisa rara de ocorrer, e não vou deixar este momento passar em branco.